quarta-feira, abril 19, 2017

NUM ANIVERSÁRIO DA MORTE DE LORD BYRON

*
__Hoje vou ensinar como é a estrofe
__Que um lorde inglês usou num certo poema
__No qual versou de si tal qual mau bofe
__Que faz da própria vida o velho tema
__Fingindo que o fazer não tem problema:
__A estrofe chama-se “spenseriana”,
__E as rimas se intercalam neste esquema,
__Em nove versos feito este sacana
Aqui compõe e assina: Ivan Justen Santana.

ijs

terça-feira, abril 04, 2017

Elegia 2017

*
Caí em desgraça
co´a musa mais bela
e agora sem raça
meu potro se atrela.
Meu sonho sacode
do bolso de poemas:
não saco uma ode
sem estratagemas
e estratos de gemas:

componho umas flores
nos versos das dores.

ijs
__

quarta-feira, março 22, 2017

VOCÊ (NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

*
Você
queria ser
Mallarmé:
mala
você
já é.

Você
queria ser
um Rimbaud
mas nem
o fogo
você
roubou.

Você
queria ser
um sacana
dum artista
mas se
cansou até
de fazer
essa
lista.


ijs

terça-feira, março 21, 2017

SEM CONSEGUIR AINDA DORMIR

*
Sem conseguir ainda dormir, e lembrando
que este blog ainda existe e anda vivo se movendo,
e eu estou caindo e recaindo no que antes esnobei,
pensei que quase dá no mesmo mas nem tanto,
e que escrever em versos
à vontade no teclado de um computador de colo
é outro jogo de futebol, ou melhor:
é o velho jogo novo e mais estiloso,
ou mesmo apenas papo furado
mesclado
com pretensa alta poesia.

Mas
se eu ainda me presto
e acho que presto
a isto e nisto
então
não
importa
tanto o meio, e a mídia:
(será?)

li agora pouco um artigo
que fez uma crítica redutora
sobre o poder
ou pior
a falta de relevância
do trocadilho
por si só:
ou da paronomásia
(o efeito de semelhança
diferença de palavras e nomes),
e me chamou a atenção
a intenção de dar relevo
maior aos conteúdos --- melhor reformular:
talvez o interessante seria/seja conseguir
aliar sonoridade e sentido e desenho animado
e humor e prazer e borrachada na cara
spray de pimenta nos olhos das outras
pessoas que também aparecem no jornal majoritário...

Enfim: além de tudo isso
também acho que valem
a construção, a métrica, a técnica,
o uso correto da escansão e das cesuras
eventuais ou súbitos encavalamentos de
versos.

Como queiram que os façam,
conseguindo ou não criar suposta música
mesmo que às vezes silenciosa de si mesma
e que acompanhe as imagens
as quais sejam farejadas
cheiradas
sentidas
como puras
uvas
maduras
ou
até
como
aquelas
"ameixas:
ame-as
ou deixe-as."*

ijs

* Paulo Leminski Filho

P.S. É a abreviatura de Post Scriptum, do latim para "escrito depois", do tempo em que se escrevia com pena e tinteiro (com tinta, evidentemente), mergulhando a ponta da pena no tinteiro e a seguir desenhando as letras no papel, e foi assim durante pelo menos mil e centenas e dezenas de anos até ser criada a tipografia móvel, enfim --
não existe mais a necessidade de usar um P.S. porque você pode editar o que escreve, sempre.
Mas resolvi usar um P.S. e me perdoem o estilo rebarbativo: eu só queria esclarecer que nem sempre o uso puro de rimas é suficiente para dizer que é poesia
só que não
só que sim
soque-se quem puder.

Ah, sim: tem que ter o link do artigo, senão não fecha o dialogismo: (editado)
fui buscar e achei mais esse -> http://www.curvilingua.com.br/ave-trocadilho/


quinta-feira, março 02, 2017

Este soneto vai para Wagner Schadeck, Caio Tardelli, Rodolfo Jaruga, e Thadeu Wojciechowski

*
Eu sei que mais ninguém dá trela a versos
e que a leitura é coisa descolada
da realidade de quem sabe um nada
e opina em tantos temas controversos.
E sei também o quanto são perversos
os poucos que controlam a mão armada
da mídia a tratar todos qual manada
enquanto os temas sãos ficam submersos.
Mas sei também dessas aspirações
estranhas que cantou um poeta alerta
às músicas e às cores dos seus sons
e às notas dum perfume que desperta
a gargalhada oculta no sorriso
interno que empetala o chão que piso.

ijs
*

domingo, fevereiro 26, 2017

Hoje troquei a imagem-cabeçalho deste blogue...

E aqui vai um poema meu que o Roberto Prado postou na rede social que cada vez mais tem virado sinônimo de internet aos desavisados sempre de plantão.


hoje vou tirar a alma da lama
falar baixo a quem me odeia
e calar fundo em quem me ama

IJS

domingo, fevereiro 19, 2017

Dois poemas que merecem transcrição...

Conforme alguns dos leitores desse blog sabem, e outros possivelmente nem soubessem se eu não comentasse aqui, um grande amigo meu e da minha turma de poetas parceiros de composições musicais e outras nem tanto, aqui em Curitiba, morreu na semana passada.

Edilson Del Grossi é talvez o mais marginal de nós marginais, e nunca chegou a publicar um livro-solo de poemas. Ele costumava compor em parceria, especialmente com o Antonio Thadeu Wojciechowski, o Sérgio Viralobos, o Chico "Capetão" Cardoso, o Edson de Vulcanis, entre outros meliantes que ainda não perderam seu latim.

Então aqui estão dois poemas excepcionalmente compostos a apenas duas mãos pelo Edilson, e que merecem entrar em qualquer antologia da poesia curitibana, paranaense, brasileira e intergalática (completa ou incompleta:)


POETA LAVANDO ROUPA

O tanque e o poeta
saíram pra conversar.
Um falando de guerra,
o outro falido de amar.

Quando as explosões começaram
o poeta fingiu de morto.
O tanque, muito vivo,
pensava só em seu corpo.

Um indiferente:
tanto faz morrer ou matar.
O outro segue em frente:
o mundo é pra passear.

Edilson Del Grossi
__

DEZ MIL ANOS EM BUSCA DO AMOR

Dez mil anos anos em busca do amor
que nos redimisse.
O poeta, mais que todos,
vem sofrendo dessa tolice.

Como é esquisito
ver um homem bonito,
forte, inteligente,
consumir-se nessa patetice!?

Como se no país das maravilhas
só existisse ele,
e não Alice.

Edilson Del Grossi
__


terça-feira, fevereiro 14, 2017

Presente do Dia de São Valentino

pra Faena Figueiredo Rossilho:

MONSTRUOSA BELEZA QUE NUNCA MORREU: TENS LUGAR À MESA ANTERIOR AO MEU

Quero amar apenas
desse amor completo
que mesmo nas curvas
vai direto e reto:
pois sou gente humana
com medo e receio
e este poema emana
seu fim pelo meio.
Tanto sentimento
sempre expresso a ela:
minha amada e templo
onde acendo a vela;
minha companheira,
minha companhia,
minha vida inteira
em meio à poesia;
minha celebrada,
festejada minha:
vinha a qualquer nada
e fez toda a linha;
minha Faeninha,
minha linda amada:
pena da almofada
da fada madrinha;
este poeminha
você já esperava
qual graça marinha
do seu rio de lava
que aqui encaminha
só mais um versinho
e um fogo no incenso
e um fumo mais denso
e vamos ao vinho.

ijs
__

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Não é sempre que o pai da sua namorada faz sessenta anos de idade...

*
SESSENTA
(Ao Cesar Rossilho)

A vida está completa
Do ser humano em chama
Que mesmo sem resposta
Completa os seus sessenta

Com tudo que ele acerta
E tudo que ele ama
E tudo que ele gosta
E tudo que ele aguenta.


ijs
__

terça-feira, dezembro 13, 2016

PECARAM

*
PECARAM a favor de quem os elegeu:
não foi você, tampouco fui eu:
eleição = ilusão.

Pecaram a favor de quem detém a grana:
não é o João, muito menos a Joana:
são poucos = ouvidos moucos.

Pecaram a favor da salvação nacional:
salvação da revista, da TV e do jornal:

e o povo vai ter vez = feliz 2036!

__

sexta-feira, dezembro 09, 2016

MESMO MESMO (PRA MINHA GRAÇA)

(de ijs pra ffr)

mesmo que a rua rua (do verbo ruir)
mesmo que o poema seja vão chavão
e já vão longe as chances de sorrir
e sejam pobres as rimas como são
as comoções diante dos desastres
e os complexos complexos
e os contrastes com trastes
e os nexos desconexos reflexos
dos sexos de nós em nós até que sós
e após as pós e os pós sem dós
a linguagem finja esfinge
e se desfaça

algo sim ainda assim sublime nos atinge
e você foi é sempre será minha graça

___

terça-feira, novembro 08, 2016

SE DEIXAREM-SE

(pra toda humanidade, menos pro um por cento dela que submete os outros 99%)

Se deixarem-se deixar levar
pelas vozes verdadeiras
e entenderem que é pela Educação,
que a causa não é matar ninguém
(ao contrário dos que atacam)
e se perceberem
(e se perceberem?!)
que estão brigando consigo mesmos
quando deveriam
ouvir as vozes verdadeiras
e então entender,
então entenderão
que não é invasão
mas invenção
daquela velha nova escola
e então
só então
não
junto então
entenderão
que se todos se opuserem
ao desmanche
e à entrega da nação
o que é que eles
os poucos traidores
poderão?
Sim:
o que eles poderão?
Eles poderinhos
e nós é que poderão:
juntos então:
pelo aumento
e não diminuição
dos "gastos" com a Saúde
e a Educação!
Redução sim:
de salários e benesses
e auxílios aos que já têm tudo
e de sobra
sim:
auxílio é para quem precisa,
não para juiz com interesse de família
em jogo
que faria melhor
morou?
em se declarar parte interessada
e não dar mais mancada.

E assim, sim:
se deixarem-se
assim
pensarem diferente
de como estão
nesta questão
e se nos deixarmos
compreender
antes de vociferar
então
as vozes
verdadeiras
ver
darão:
e o que pode ser melhor
que um país que gasta
gasta não: investe
em educação?

IJS

segunda-feira, outubro 31, 2016

NUNCA ESQUEÇAM:

(um poema pras Anas Júlias, a pedido de uma garota que não se chama Ana Júlia)

existem muito mais do que só uma aluna Ana Júlia
e as pelo menos novecentas Anas Júlias
que estão pelas novecentas ocupações
poderiam ter ido lá e brilhado
da mesma forma,
expressando-se
com emoção
e com razão, sim,
e respondendo
ao nobre presidente da casa
com igual capacidade e bravura.

Vamos prestar atenção ao que interessa
e fazer as coisas:
e já que eu decidi na vida
que faria versinhos,
vamos lá: que prosaísmo é esse?

Era uma vez
uma garota
que sabia jogar
xadrez.

E era uma vez outra garota
que lia e compreendia
economia política.

E era outra e muita vez
uma garota que falava
o que pensava -- e o que já sabia.

E era mais umas tantas vezes
e muitas e mais ainda
uma garota chamada Ana Júlia --
sim, por causa duma maldita canção
dos Los Hermanos, mas que bom:
esta Ana Júlia escrevia
poesia.

ijs

sexta-feira, outubro 14, 2016

A história dos Estados Unidos da América, contada por seu mais recente laureado...

Com Deus A Nosso Lado
(With God On Our Side - Bob Dylan)

Com Deus Ao Nosso Lado

Meu nome não importa, e a idade, tampouco
Minha terra natal se chama Meio Oeste
Pois lá fui criado pras leis respeitar
E a terra onde vivo tem Deus a seu lado

Os livros de história contam, e contam tão bem
A cavalaria atacava, e os índios caíam
A cavalaria atacava, e os índios morriam
O país era jovem, com Deus a seu lado

A Guerra Hispano-Americana teve o seu dia
E a Guerra Civil também depressa se foi
E os nomes de heróis me forçaram a decorar
Com armas nas mãos e Deus a seu lado

A Primeira Grande Guerra lacrou nosso destino
A razão dessa luta eu nunca entendi
Mas aprendi a aceitá-la e aceitá-la com orgulho
Pois não se contam os mortos quando Deus está a seu lado

A Segunda Grande Guerra chegou ao seu fim
Perdoamos os alemães e nos tornamos seus amigos
E embora seis milhões nos fornos eles tenham fritado
Os alemães agora também têm Deus a seu lado

Aprendi a odiar os russos por toda minha vida
Se outra guerra começar serão eles os inimigos
De odiar e temer, de correr e se esconder
E tudo aceitar bravamente, com Deus a meu lado

Mas agora temos armas de pós químicos tóxicos
Se formos obrigados, vamos usar esses tóxicos
Um apertar um botão, e lá se vai o mundo todo
E você nunca faz perguntas, quando Deus está a seu lado

Nas minhas horas escuras tenho pensado sobre isso:
Que o próprio Jesus Cristo foi traído por um beijo
Mas não posso pensar por você, decidir sobre o fato:
Se Judas Iscariotes tinha Deus a seu lado

Então agora em despedida, estou cansado pra diabo.
A confusão que sinto língua alguma falava
As palavras me enchem a cabeça, e se derramam por terra:
E se Deus está a nosso lado, impedirá a próxima guerra

versão brasileira: ijs